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domingo, 30 de junho de 2013

Do monte à planície

Continuando meus estudos e reflexões sequenciais sobre o Evangelho de Lucas, eis que, no capítulo 6, aproximamo-nos de um dos mais célebres ensinos de Jesus contido no livro. Trata-se do Sermão da Planície que guarda muitas similaridades com o Sermão da Montanha de Mateus 5, 6 e 7. Antes, porém, quero fazer uma breve contextualização dando a ela uma aplicação prática para os nossos dias.

Após ter passado a noite orando a Deus num monte, o Mestre escolheu seus apóstolos entre os incontáveis discípulos que tinha a esta altura do ministério exercido no meio dos judeus. Serão doze mensageiros a quem Jesus enviará para divulgação das boas novas do Reino, representando, simbolicamente, o mesmo número das tribos de Israel.

Curioso não constar no rol de Lucas 6:12-16 os teólogos, sacerdotes e religiosos da época. Nem tão pouco os nomes de nobres ou políticos poderosos. Percebe-se que o Senhor preferiu selecionar pessoas rudes, de pouca instrução e sem elevada estima dentro da sociedade para ajudarem-no na sua "pescaria de homens". Pelo menos, quatro deles sabemos que eram pescadores do Mar da Galileia (Pedro e André, Tiago e João). Já Mateus fora um publicano cobrador de impostos sobre o qual falei na postagem do dia 27. E teve também um ex-guerrilheiro que integrou o radical partido dos zelotes.

Pouco sabemos pelos evangelhos quem fora esse discípulo revoltoso xará de Pedro que foi chamado também de Simão. Porém, acho bem significativo sabermos que a pacífica proposta de Jesus fez alguém abandonar a insanidade da luta armada contra o governo estrangeiro para semear o Reino de Deus no coração de seu povo. Algo que deveria ser refletido por esses baderneiros infiltrados nas passeatas dos movimentos sociais recentes e que ficam incitando a violência nas ruas das cidades brasileiras.

Com tal grupo de evangelistas, Jesus desce do monte e chega a uma planície onde recebe uma multidão de gente vinda tanto da Judeia e de Jerusalém (cidade onde ficava o Templo) como das regiões gentílicas de Tiro e de Sidom, situadas fora dos limites geográficos de Israel. Ali ele atenderá os doentes e os "atormentados por espíritos imundos", os quais, por sofrerem de algum mal, eram muitas das vezes excluídos ou diminuídos moralmente no meio social a exemplo do personagem bíblico Jó. Bastava tocar no Salvador que dele saía poder de cura, dando a entender qual  tamanho da fé daqueles que percorriam longas distâncias para buscá-lo.

Então, após viver mais uma experiência de taumaturgia com a multidão, Jesus volta-se para os discípulos e passa a ensiná-los. O ambiente descrito no terceiro evangelho não será uma elevação e sim um lugar plano. Se em Mateus o cenário da montanha serve para traçarmos um interessante paralelo com o Mone Sinai, onde Moisés recebera os Dez Mandamentos, vejo na planura uma representação da acessibilidade capaz de incluir até quem estava fora de Israel e desconhecesse a legislação mosaica. Ali os necessitados poderiam ir até o Senhor e tocá-lo. Não são colocados obstáculos teológicos, morais, étnicos ou de origem para o alcance do Reino. É o pregador descendo de sua montanha numa atitude incontestável de acolhimento sincero.

Trazendo essa experiência para os dias de hoje, percebo o quanto é necessário buscarmos uma real aproximação com os destinatários da mensagem evangelística. Quantas vezes os pregadores não se consideram santos demais a ponto de suas palavras nem conseguirem tocar o coração do ouvinte tido por ele como um "imundo"?

Até que ponto as igrejas são de fato ambientes acolhedores capazes de aceitar a todos sem restrição, preconceitos ou exigências morais?

Como é que tratamos os homossexuais, os que ainda sofrem dificuldades para se livrarem de certos vícios (desde o crack até o cigarro), os descasados que vivem em união estável, os praticantes das tradições africanas como os umbandistas, os que pensam de maneira diferente da gente e todos aqueles que não se enquadram nos falsos padrões de santidade eclesiásticos?

Está certo beijar o pecador num dia de apelo missionário para apedrejá-lo logo em seguida através de boicotes na participação da Ceia, nos retiros de casais e nas atividades de culto da comunidade? Ou não se torna discriminatório dizer para a pessoa que primeiro ela deve "se libertar" de certos comportamentos para comer do pão e beber do cálice da comunhão?

Ora, expulsemos de nós essas imundas ideias de falsa santidade!

Ao contrário dos fariseus hipócritas do cristianismo atual, Jesus permitiu ser tocado por quem era tido como possuidor de "espírito imundo" e dele saía poder sarando as enfermidades vistas pela teologia da época como consequências do pecado. Entendendo os milagres como anúncios da chegada do Reino, podemos dizer que, por ter se tornado acessível, o Mestre regenerou homens e mulheres errantes representados por aquela massa de excluídos, os quais buscavam o real sentido para viver. Ele não estava ali afim de julgá-los e sim para recebê-los amorosamente. Por isso é que os religiosos e teólogos "mestres da Lei" não tinham nada a ver com o ministério de Cristo. Nem de ontem e nem de hoje! Por isso é que não consigo compor com os cristãos santinhos desse século XXI que continuam se separando e se isolando dos necessitados espirituais pelas barreiras morais que constroem.

Não sigo o catolicismo romano, mas estou apreciando bem as atitudes do atual papa. Francisco I tem demonstrado uma incrível proximidade e bons exemplos de uma vida humilde. E, independentemente de suas ações serem ou não planejadas por um trabalho marketing religioso, percebo que ele inspira muitos cristãos. Pouco importa como, mas o patriarca de Roma está aos poucos desfazendo aquele ar de "sua santidade". Não duvido que a conduta dele incomode os religiosos que se escondem por trás da batina ou de qualquer outra máscara quando o próprio líder se põe moralmente nu no meio de todos declarando-se igualmente pecador.

Que como fez Jesus, a Igreja possa também descer do "monte" à "planície". Aliás, o nosso Amado Mestre jamais se colocou em condição superior a ninguém. Tanto é que se submeteu ao batismo de João semelhante a todos os demais pecadores chamados ao arrependimento. E este é o exemplo que recebemos daquele que é referencial de homem modelo, o Cristo humilde que a todos recebe em seus braços sempre abertos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A transgressão dos falsos valores em favor da vida



"O Filho do Homem é senhor do sábado" (Lc 6:5)
"Que vos parece? É lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou deixá-la perecer?" (Lc 6:9)

No capítulo 6 do Evangelho de Lucas, há dois episódios de controvérsia envolvendo Jesus, os fariseus e a interpretação sobre o quarto mandamento da lei divina - o Shabat.

Segundo a legislação mosaica, havia dois motivos básicos para o israelita praticar o repouso no último dia da semana: (i) o descanso e a benção de Deus após ter concluído a sua obra criadora, o que seria um argumento universal para os homens de todas as nacionalidades contemplarem a existência com base em Êxodo 19:11; e (ii) a libertação da escravidão egípcia de grande significação histórica para o povo judeu (Deuteronômio 5:15). Logo, podemos resumir que o Shabat reúne a celebração da vida e da liberdade, os dois bens mais caros para o ser humano.

Entretanto, nos tempos de Jesus, muitos já tinham perdido o entendimento sobre a razão da guarda dos preceitos bíblicos. No caso do sábado, o apego cultural-religioso havia se tornado tão excessivo que as pessoas já estavam se esquecendo da função maior da Lei divina que é dar uma instrução, orientação ou direção afim de vivermos melhor. Nunca para servir de instrumento opressivo contra o homem.

Conta o livro deuterocanônico de Macabeus que, pouco mais de um século antes de Jesus, houve um grupo de judeus que acabaram sendo exterminados porque recusaram a se proteger de um ataque inimigo em dia de sábado. Também a arqueologia nas terras palestinas descobriu informações sobre a existência de comunidades radicais de essênios na regão do Mar Morto onde houve membros que se recusavam até a defecar no dia de sábado. E, de acordo com a narrativa de Atos dos Apóstolos, a distância do local onde Jesus ascendeu aos céus até à cidade de Jerusalém é comparada à "jornada de um sábado", correspondendo a pouco mais de um quilômetro a quantidade máxima de passadas que as pessoas poderiam se deslocar no dia santo.

Muitos afirmam erroneamente que Jesus teria revogado o 4º mandamento do Decálogo e outros que, com sua ressurreição no domingo, operou-se uma substituição de dias. Só que nada disso consta na Bíblia e o que observo é uma nova maneira de se interpretar não somente o Shabat como todos os mandamentos dentro de uma perspectiva mais amorosa.

De modo algum o texto do livro de Lucas deve ser tomado como um anti-judaísmo e sim visto como uma oposição à religiosidade burra em geral. Questões como as que foram enfrentadas por Jesus seriam triviais para judeus liberais de quaisquer épocas. Nem entre os fariseus do final do segundo Templo parece ter existido uma unanimidade acerca do que seria permitido fazer aos sábados. Porém, todas as religiões têm os seus seguidores fundamentalistas e há quem culpe os livros sagrados por isso. No Israel atual, uma minoria ultra-ortodoxa opõe-se às visitas das mulheres judias ao Muro das Lamentações e alguns deles mais exaltados jogam até pedras nas ambulâncias que socorrem pacientes no dia santo.

Não vou falar tanto dos judeus radicais neste artigo. Antes prefiro comentar sobre as absurdidades do nosso meio cristão do que criticar especificamente aspectos de uma religião alheia. Não escrevo para arrancar aplausos do homem e, se sigo a Cristo, a causa do Filho do Homem indica o quanto devemos buscar a auto-reflexão voltada para nós mesmos e o grupo do qual fazemos parte. Tal desafio precisa ser encarado por mais que venhamos a ser rejeitados como indignos pelos próprios irmãos na fé.

Ora, o que significa ser o filho do homem "senhor do sábado"?

Neste primeiro episódio de controvérsia, os discípulos de Jesus foram repreendidos pelos fariseus por estarem colhendo e se alimentado de espigas num dia de sábado, sem fins laborativos mas sim conforme Deuteronômio 23:25 permite. Os religiosos censuravam-os por satisfazerem uma necessidade nutricional vendo ali com escândalo uma suposta quebra do mandamento. O Mestre, porém, lembrou-lhes sobre um acontecimento bíblico envolvendo Davi quando o grande herói de Israel e seus homens famintos, ao fugirem de Saul, foram procurar abrigo junto à comunidade sacerdotal (1 Samuel 21:1-6). Não achando outra coisa para comerem ali, só restavam os pães sagrados que eram de uso exclusivo do serviço do Templo (Lv 24:5-9):

"Deu-lhe, pois, o sacerdote o pão sagrado, porquanto não havia ali outro, senão os pães da proposição, que se tiraram de diante do SENHOR, quando trocados, no devido dia, por pão quente" (1Sm 21:6; ARA)

Manter a reverência pelos seculares mandamentos dos nossos ancestrais sempre será importantíssimo para a formação ético-espiritual do indivíduo. Porém, tal observância não pode se tornar um engessamento a ponto de ir contra às principais necessidades humanas de satisfação imediata e se tornar um atentado à própria vida. Foi a este respeito que acredito ter Jesus tomado posição. Jamais contra o Shabat.

No Evangelho de Marcos, texto que, provavelmente, já fosse conhecido pelos padres gregos autores de Lucas e de Mateus, a afirmação de que "o Filho do Homem é senhor também do sábado" vem precedida do ensino de que o repouso semanal fora instituído por causa do homem (Mc 2:27). Porém, na perspectiva do terceiro evangelho, o dito de Jesus ganha o sentido de que é possível interpretar a Lei divina contrariamente a uma visão restrita e fechada da letra, afim de ser alcançada a norma principiológica superior que é inspiradora das orientações contidas nos livros sagrados. E, na passagem de Lc 6:1-5, o Mestre está falando que o suprimento das necessidades alimentares deve prevalecer sobre uma proibição cultural estúpida, a qual nem ao menos permite que a pessoa prepare sua própria refeição.

No trecho de Lucas 6:6-11, a polêmica em torno de Jesus torna-se ainda maior e marca o início do momento em que o Mestre passará a ser odiado pelos religiosos de seu tempo e não apenas criticamente supervisionado. Ao entrar numa sinagoga em dia de sábado, o Senhor não recusou conceder a cura a um homem que tinha a mão direita ressequida. Fez parte de seu ensino, naquela ocasião, restabelecer a saúde de quem não a tinha totalmente, dando um sentido ao Shabat ali comemorado.

É certo que as mentes julgadoras daqueles fariseus ali presentes não foram capazes de compreender o benefício feito a um homem doente permitindo-lhe celebrar a vida e a liberdade com a alegria plenamente restaurada numa igualdade de condições com os demais devotos. Então, sabendo como aqueles teólogos de pensamento petrificado iriam interpretar o fato, Jesus adiantou-se em responder com sábias indagações como já citado:

"Que vos parece? É lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou deixá-la perecer?"

Quantas vezes os religiosos cristãos de hoje não fazem dos mandamentos e obrigações eclesiásticas pretextos para se omitirem?!

Quando deixamos de atender  um necessitado posto por Deus em nosso caminho para não nos atrasarmos para um culto devocional, será que a frequência às atividades da igreja não se tornou uma vil desculpa para deixarmos de fazer o bem a alguém? Vejam, meus caros leitores, que já estou saindo da questão específica da guarda do sábado, que não é mais tão polêmica em nosso contexto de vida, para aplicarmos a essência daquele ousado ensino de Jesus a outros campos da vivência cotidiana. Acrescento que, nas áreas de estudo do Direito, é vasto o terreno onde leis novas e velhas podem ser instrumentalizadas conforme o princípio maior da dignidade da pessoa humana que move a nossa Constituição e todo o ordenamento jurídico pátrio. Aliás, eu poderia identificar tal norma com o amor de Cristo.

Antes de concluir, quero buscar corrigir uma injustiça histórica do cristianismo em relação ao Shabat que acabou importando no trágico rompimento do quarto mandamento pela Igreja. Nem me refiro tanto à mudança do dia santo para o domingo, mas sim do esvaziamento essencial do preceito bíblico. É que, com uma interpretação antijudaica dos evangelhos, corrompeu-se o ensino do Mestre e, com isto, viemos a perder a importância do descanso semanal a ponto de hoje em dia poucas vozes clamarem contra a lesiva permissão de todo o comércio abrir as suas portas de segunda à segunda.

Nossos massacrados trabalhadores, desde uma medida adotada no governo FHC, viraram escravos de seus patrões a ponto dos funcionários das padarias e dos supermercados nem sempre desfrutarem de um final de semana com a família. Por isso, temos hoje um preocupante sentimento de mal estar e de insatisfação na sociedade brasileira capaz d propiciar um clima de desequilíbrio social no país.

Creio que, sendo Jesus judeu, jamais ele pretendeu revogar o descanso sabático. Não foi sua proposta que hoje enchêssemos a agenda de atividades no dia que se destina ao repouso coletivo, o qual precisa ser fixo numa coletividade. Porém, o Mestre deixou claro que não devemos nos omitir em praticar o bem quando este precisa ser executado em seu devido momento. E aí cabe ao discípulo transgredir as concepções construídas sobre o cumprimento de um preceito para que a Lei divina, em seu ponto mais elevado, seja amorosamente cumprida.


OBS: A ilustração usada neste texto refere-se a um quadro do artista francês James Joseph Jacques Tissot  (1836-1902), pintado entre 1886 e 1894, onde ele retrata os conflitos experimentados entre Jesus e os fariseus. A obra encontra-se no Museu do Brooklyn, Nova York. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_Woe_unto_You,_Scribes_and_Pharisees_(Malheur_%C3%A0_vous,_scribes_et_pharisiens)_-_James_Tissot.jpg

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Venha para o banquete da graça na casa de Levi!



Levi, identificado também como Mateus nos evangelhos, foi um coletor de impostos que se tornou apóstolo de Jesus. Naqueles tempos, os homens que exerciam a função de cobrar os tributos para o Império Romano eram chamados de publicados e considerados como a escória de Israel. Seja porque, habitualmente, muitos deles se corrompiam ou pelo fato de apenas trabalharem para o opressor governo estrangeiro.

No lado oposto aos publicanos estavam os fariseus, tidos como a nata moral do povo israelita por viverem rigorosamente a legislação de Moisés. Estes praticavam ritualisticamente a caridade para com os pobres, faziam constantes orações e se consagravam com frequência através de jejuns. Tinham qualidades, mas os evangelhos não os consideraram como modelos a serem seguidos e os textos expuseram as contradições de comportamento que tinham.

Enquanto os religiosos fariseus mantinham-se resistentes e excessivamente críticos em relação ao ministério de Jesus, os pecadores publicanos foram capazes de receber o ensino do Mestre de coração aberto. Se para os fariseus era blasfematório o Senhor ter declarado o perdão de pecados a um homem paralítico (Lc 5:20-21), Levi parece ter se sentido honrado com o chamado de Jesus para segui-lo.

"Passadas estas coisas, saindo, viu um publicano, chamado Levi, assentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu" (Lc 5:27-28; ARA)

Vejo na vocação de Levi pelo menos dois detalhes interessantes. Um é o lugar onde ele se encontrava (na coletoria), numa espécie de "antro de perdição" onde muita maracutaia deveria acontecer e o nível de corrupção ali talvez só perdesse para o Congresso brasileiro. Numa atualização ampla da mensagem bíblica, o local poderia corresponder também aos prostíbulos, às bocas de fumo e mais ainda às delegacias de polícia da "banda podre". Jesus foi então buscar o seu discípulo onde religioso nenhum de sua época gostaria de ir. E só poderia estar assentado ali quem realmente não fosse santo.

Ao chamado do Mestre, Levi respondeu prontamente abandonando tudo aquilo. Ou seja, deixou para trás a vergonhosa profissão de publicano coletor de impostos que, embora trouxesse as compensações das riquezas materiais, não supriam as necessidades de seu coração. O convite de Jesus para segui-lo no seu ministério foi entendido como opção superior incomparavelmente melhor do que manter uma vidinha ilusória anestesiada pelo dinheiro.

A amizade de Jesus tornou-se algo de elevada estima para Levi e ele resolveu compartilhar isso com seus companheiros de profissão. O amor inconfundível do Mestre foi capaz de apresentar um Deus acessível para todos os pecadores. Pouco importava qual a situação moral do homem para a sua aceitação imediata no Reino. Por isso, os publicanos passam a sentir prazer em estar com o Senhor. Ao cenário julgador e de difícil acesso onde estavam assentados os fariseus e mestres da Lei no episódio da cura do paralítico de Cafarnaum, surge uma mesa de comunhão fraternal na casa do novo discípulo. Dali os religiosos se auto-excluem murmurando:

"Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?" (v. 30)

Sem deixar a festa, Jesus respondeu metaforicamente aos que se separavam dos pecadores arrependidos e do banquete da graça:

"Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento" (vv 31-32)

É certo que o Reino não viera somente para os publicanos mas para os fariseus também a ponto de ter Jesus pregado nas sinagogas destes que era o lugar frequentado pelo religiosos. Mas será que estes tinham a consciência do médico das almas no meio deles? Ou melhor dizendo, tinham os tais uma percepção da própria necessidade espiritual de arrependimento para buscarem uma reciclagem ética?

Ao ouvirem a resposta de Jesus, aqueles religiosos nem devem ter dado conta que eram também doentes e procuraram um outro motivo para pegarem o Mestre em contradição. Tocaram na falta de jejum habitual dos discípulos ao argumento de que tanto os seguidores dos fariseus quanto os de João Batista mantinham uma frequência de orações e atos de consagração enquanto a rapaziada ali comia e bebia sem cerimônias. E a este discurso hipócrita respondeu Jesus:

"Podeis fazer jejuar os convidados para o casamento, enquanto está com eles o noivo? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; naqueles dias, sim, jejuarão" (vv 34-35)

Com esta explicação, Jesus não esvaziou o valor da prática do jejum mas teria ressaltado a necessidade de correspondência à ocasião apropriada, reprovando o modo de vida ascético de muitos religiosos. Estes demonstraram preferência pela tristeza e pelo luto, agindo com a incapacidade de saborear o arrependimento dos irmãos pecadores. Pretendiam perpetuar nas pessoas, durante um ano inteiro, os sentimentos de contrição e penitência característicos da celebração judaica do Yom Kippur ("Dia da Expiação"), única data no calendário em que a legislação de Moisés prescrevia um jejum obrigatório para os israelitas.

Ora, será que eram só aqueles fariseus que não gostavam de festejar? Quantos hoje no nosso meio eclesiástico não permanecem de cara triste restringindo o convívio alegre com os irmãos? Tem cada igreja por aí que só pedindo misericórdia! Fazem da Santa Ceia momentos pavorosos produzindo um sentimento de inadequação tão forte em que muitos acabam deixado de participar. Neste ano mesmo, quando eu fui visitar uma igreja presbiteriana, achei absurdo o pastor que ministrou a Ceia ter estabelecido requisitos para que alguém comesse do pão e bebesse do cálice. Só quem fosse batizado e membro de uma denominação evangélica é que estaria legitimado cear com eles. Minha esposa que frequenta um centro espírita não pôde e eu que estou sem vinculação institucional-religiosa também não me enquadrava naquelas especificações que nem a Bíblia impõe. E acho que Jesus também ficaria de fora daquele momento a meu ver mais fúnebre do que feliz.

No complemento da resposta de Jesus são inseridas duas figuras metafóricas que repetem o mesmo pensamento: da veste nova e dos odres novos. Com a presença do "noivo", tem-se a chegada do "novo" que seria a vinda do Reino. Tratava-se, pois, de um feliz momento de celebração em que, finalmente, a salvação havia chegado a todos inclusivamente. Só que para essa maravilhosa pesca de homens os odres velhos e os panos antigos da religiosidade não se prestariam. O comportamento dos fariseus era, portanto, impróprio para a ocasião.

Em relação ao texto do Evangelho de Marcos, há um proposital acréscimo de Lucas que assim diz:

"E ninguém, tendo bebido o vinho velho, prefere o novo; porque diz: O velho é excelente" (v. 39)

Pois é. Penso que aí esteja o convite de Jesus para preferirmos sempre o melhor, motivo pelo qual recuso-me retornar para certas "igrejas". Além da religiosidade não combinar com a celebração da vinda do Reino, não representa a melhor opção existencial. O vinho mais gostoso significa aderir à festa alegre anunciada pelas boas novas de Cristo para comemorarmos a inclusão de todos na nossa eucaristia permanente, comprazendo-nos na conversão dos pecadores e no apoio total dado pela comunidade aos irmãos, inclusive financeiro, se necessário.

O Reino de Deus é chegado! Isto João Batista e Jesus proclamaram em seus dias sendo que os evangelistas passaram pra frente tal anúncio. Doentes da alma e pecadores todos somos. Porém, há graça sem medida para a cura e regeneração das pessoas, motivo pelo qual não podemos mais desperdiçar o nosso tempo com religiosidade. Vamos ao banquete na casa de Levi!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A Vocação de São Mateus (1599-1600) do pintor Michelangelo Merisi de Caravaggio (1571-1610). A obra se encontra em Roma e foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Caravaggio,_Michelangelo_Merisi_da_-_The_Calling_of_Saint_Matthew_-_1599-1600_(hi_res).jpg

Será preciso mais do que dinheiro para a educação melhorar



Segundo uma recente notícia divulgada pela BBC, o Brasil ficou em penúltimo lugar dentro de um ranking global de educação que comparou 40 países levando em conta notas de testes e qualidade de professores, dentre outros fatores. Trata-e de uma pesquisa encomendada à consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU) e que fora solicitada pela Pearson, empresa que fabrica sistemas de aprendizado e vende seus produtos a vários países.

Em primeiro lugar ficou a Finlândia, seguida da Coreia do Sul e de Hong Kong. Os quarenta países foram divididos em cinco grandes grupos de acordo com os resultados. Ao lado do Brasil, mais seis nações foram incluídas na lista dos piores sistemas de educação do mundo: Turquia, Argentina, Colômbia, Tailândia, México e Indonésia, país do sudeste asiático que figura na última posição.

Pois bem. As pressões populares fizeram com que o nosso Congresso, após ter enterrado a PEC 37, aprovasse ontem a destinação de 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Excelente! Mas será preciso muito mais do que dinheiro para mudarmos esse quadro!

Analisando os sistemas educacionais bem sucedidos, o estudo feito pela EIU concluiu que investimentos são importantes, porém não tanto quanto manter uma verdadeira "cultura" nacional de aprendizado, que valoriza professores, escolas e a educação como um todo. Daí o alto desempenho das nações asiáticas no ranking. Nesses países, o estudo tem um distinto grau de importância na sociedade e as expectativas que os pais têm dos filhos são muito altas.

Questiono. Será que, depois da votação ocorrida esta semana o Parlamento brasileiro, os salários dos professores nas escolas públicas dos municípios não precisará aumentar?

Poderemos nos conformar com a precária estrutura dos prédios das nossas escolas, a falta de espaço, de profissionais, de materiais e de conforto?

E o tempo em que a criança e o jovem passarão na escola? A partir do próximo ano letivo não poderíamos ter um ensino em horário integral onde o aluno entre às sete e meia da manhã pelos portões da instituição e volte pra casa somente depois das quatro da tarde?

Penso que, além do empenho de todos (governos, professores e pais de alunos), falta criar um ambiente favorável ao aprendizado no nosso país, como a pesquisa da EIU bem constatou. Em matéria de educação, não basta o cidadão e o contribuinte simplesmente dizerem: "Eu tô pagando". É preciso um envolvimento direto da sociedade, um interesse real para que as nossas crianças aprendam e tenham prazer de estar na escola, dando continuidade ao aprendizado no ambiente familiar. Logo, vamos ter que cobrar tudo isso dos nossos prefeitos e acompanharmos os trabalhos de cada diretor de escola a começar pelo estabelecimento de ensino do nosso bairro ou onde nossos filhos se encontram matriculados.

Talvez os pais precisem se comprometer em estarem presentes em dois tipos de reuniões: assembleias que deliberem sobre a gestão escolar e reuniões com os professores para saberem como anda o aprendizado do filho. Posso dizer que tudo isso me lembra bem a conhecida frase de um ex-presidente norte-americano que foi assassinado na década de 60, o Jonh Kennedy:

"Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país"

Mais do que nunca o cidadão brasileiro precisa se importar com a educação. A hora da mudança chegou! Teremos que digerir da melhor maneira os recursos bilionários que virão por aí de modo que a energia dos protestos precisará ser proativamente canalizada para o desenvolvimento de propostas as nível local.

Um bom dia para todos!


OBS: Foto da Agência Brasil atribuída a Fábio Rodrigues Pozzebom. Foi extraída de http://www.ebc.com.br/noticias/politica/2013/05/projeto-que-destina-todo-o-dinheiro-dos-royalties-do-petroleo-para

terça-feira, 25 de junho de 2013

"Teus pecados estão perdoados"



Continuando meus escritos sequenciais sobre o Evangelho de Lucas, chego então a um texto super comentado dentro das igrejas que é a cura de um paralítico em Cafarnaum (Lc 5:17-26).

Geralmente o que mais entusiasma os pregadores e os ouvintes é a fé demonstrada na cura do homem portador de uma deficiência crônica. Tanto por ele quanto pelos que o carregavam em seu leito. Pois, tendo procurado por Jesus, que estava num ambiente fechado ensinando, e não conseguindo aproximação do Mestre por causa da multidão de pessoas ocupando o espaço, eles ousaram introduzir o paralítico por cima do telhado:

"E, não achando por onde introduzi-lo por causa da multidão, subindo ao eirado, o desceram no leito, por entre os ladrilhos, para o meio, diante de Jesus. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Homem, estão perdoados os teus pecados." (vv. 19-20; ARA)

Aquele poderia ter sido um dia tranquilo na vida de Jesus se ele curasse o paralítico sem levantar uma polêmica com os fariseus e com os teólogos ali presentes, a quem o texto chama de "mestres da Lei". Porém, a missão do nosso Senhor e Salvador exigia que ele contrariasse os homens de sua geração cumprindo a vontade do Pai tal como fizeram corajosamente os profetas antes dele. Com isso, a declaração de que os pecados do paralítico estavam perdoados foi compreendida como blasfematória porque segundo o texto, aqueles religiosos julgadores entendiam que somente Deus pode conceder perdão (v. 21).

Não sabemos sobre o que Jesus estava ensinando naquela casa antes do paralítico chegar porque a narrativa não menciona. Porém, dá para percebermos que o Mestre não estava ali somente para ministrar curas físicas mas também transmitir conhecimento de elevação espiritual e aproveitou aquela incrível oportunidade com a mesma quantidade de ousadia dos que transportaram o homem pelo telhado.

Percebendo o descontentamento dos fariseus dali, Jesus tocou na questão do relacionamento entre o perdão e a cura, algo que é polêmico até no meio dos cristãos deste nosso século XXI:

"Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse-lhes: Que arrazoais em vosso coração? Qual é mais fácil dizer: Estão perdoados os teus pecados ou: Levanta-te e anda? Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico: Eu te ordeno: Levanta-te, toma o teu leito e vai para a casa." (vv. 22-24)

Tendo elaborado uma visão de mundo baseada nas leis de causa e efeito, certamente aqueles fariseus entendiam as doenças como consequências do pecado. E de fato tal relação existe porque há enfermidades psicossomáticas provocadas pelo nosso comportamento, mas, se for aplicada a todos os casos, pode gerar terríveis preconceitos no convívio social decorrente de uma má generalização.

É provável que o paralítico deva ter passado uma boa parte dos seus anos ouvindo as pessoas lhe dizerem que estava daquele jeito por causa de algum pecado. O texto não fala se o homem nasceu sem poder andar ou se veio a perder a capacidade de locomoção por algum acidente ou doença. Contudo, não duvido que alguém viesse lhe dizer ignorâncias como estas: "Olha, você está expiando males cometidos nesta vida, ou nas encarnações passadas, ou pagando pelos erros de seus pais".

Que ideia restrita da vida aquela gente tinha! Aliás, não diria que apenas os fariseus e os teólogos de dois milênios atrás teriam pensado assim. Aqui no Brasil, tem muitos cristãos que enxergam as coisas com graus semelhantes de miopia espiritual, quando fixam uma lei moral de causa e efeito, desprezando a insuperável bondade divina. Vejo, por exemplo, espíritas querendo estabelecer relações cármicas para tudo que vêem, mas também tem católicos e evangélicos intencionando substituir a gratuidade sanadora do Criador, que é oferecida à humanidade sem preço, por barganhas meritórias inaceitáveis.

Ao dizer "os teus pecados estão perdoados", Jesus rompeu com todos esses raciocínio falaciosos de uma teologia de causa e efeito. Tais palavras aliviam o fardo pesado de culpas que inúmeras pessoas ainda carregam desde os tempos de infância, como se estivessem destinadas a pagar pelos seus problemas. Por isso, a afirmativa de Jesus produz aceitação, inclusão, libertação, cura psíquica bem como o fim dos preconceitos.

Um dos princípios que podemos extrair sem medo desse excelente aprendizado bíblico é que o Criador bendito já está reconciliado com a humanidade inteira. Ninguém deve nada a Deus e nunca esteve em falta. As atitudes más podem desagradar o coração do Pai, mas não existe, no céu, qualquer anotação de dívida contra nós.

Como consequência dessa nova visão da existência, devemos compreender que viemos aqui para sermos felizes. Ninguém nasceu destinado ao sofrimento ou a qualquer tipo de inferno e, por mais atribulada que tenha sido a história de uma pessoa, ela é convidada para encarar os problemas como provas normais da experiência terrestre a serem superadas. Logo, temos que tomar a consciência de que não estamos expiando pecado nenhum!

Certamente a lei da semeadura que diz "o homem colhe aquilo que planta" é compatibilizada com o perdão divino incondicional. Os resultados produzidos pela ação e reação dentro da realidade devem ser encarados debaixo do manto da graça para alcançarmos o equilíbrio confiadamente. Até porque ainda vamos cometer erros, desejando-os ou não, os quais poderão ser muitos. Em cada tentativa de acertarmos o alvo, nem sempre nos desviamos dos equívocos de modo que só aprenderemos mesmo a caminhar pela graciosa pedagogia do perdão. Do contrário, como evoluiremos alimentando terríveis culpas?

O milagre operado por Jesus foi acompanhado pela admiração de todos (v. 26). Os questionamentos cessaram naquela ocasião feliz e, ao que parece, até os fariseus presentes foram tomados por igual sentimento, o que não significa ter havido compreensão total da mensagem do Mestre.

Fazendo uma análise maior de Lucas, acredito que a inserção do episódio da cura do paralítico de Cafarnaum entre a purificação de um leproso (vv. 15-16) e a vocação do publicano Levi (27-28), não foi por acaso. O autor sagrado certamente teve um propósito específico ali já que nenhum dos evangelhos segue uma cronologia exata sobre Jesus porque não foram escritos para serem biografias históricas. E aí, depois de promover a inclusão social do leproso e de curar o paralítico perdoando os pecados deste, o próximo passo do Mestre será a escandalosa aceitação dos que eram considerados a escória moral de Israel - os cobradores de impostos. Se os pecados estão perdoados por Deus, Jesus estende a sua amizade regeneradora para todos sem restrições quanto aos atos passados ou a condição de cada um. Os que coletavam tributos para Roma, como já tinham sido orientados por João Batista para não cobrarem "além do que o estipulado" (3:12-13), vão participar de um banquete com o Mestre na casa de Mateus (5:29-32), gerando maiores perplexidades entre os religiosos de plantão.

Que venhamos a seguir as mesmas pisadas de Jesus! Milagres físicos nem sempre ocorrerão e, nos evangelhos, aparecem mais como sinais com um significado de ensino superior aos fatos apresentados. Porém, sempre teremos a possibilidade de buscar a cura dos hediondos preconceitos morais, incluindo no Reino todos os seres humanos e formando uma comunidade melhor. Esta sim é a transformação que Deus espera de nós. Algo que depende mesmo da gente.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro do pintor prussiano Bernhard Rode (1725-1797), retratando a cura do paralítico feita por Jesus. A obra é de 1780 e foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rode_1.jpg

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Dilma sugeriu uma Assembleia Constituinte, e aí?!



Na reunião de hoje com os 27 governadores e 26 prefeitos de capitais estaduais, a presidenta Dilma Rousseff chegou a propor, dentre outras coisas, a convocação de um plebiscito para que o eleitorado brasileiro decida sobre termos uma Assembleia Constituinte destinada a fazer uma reforma política no país. Estas foram suas palavras:

"Quero neste momento propor um debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita. O Brasil está maduro para avançar e já deixou claro que não quer ficar parado onde está"

É importante falarmos em reforma política. Mas que tipo de reforma? Isso precisa ser ainda muito bem discutido e apurado antes de se propor a convocação de uma Assembleia Constituinte que mexerá na Lei Maior do Brasil.

Entretanto, notei durante as manifestações que o povo brasileiro anda muito mais interessado em fazer cumprir a nossa Carta Magna do que meramente revisá-la ou fazer a sua substituição por uma nova. Um exemplo bem evidente seria a rejeição da PEC de n.º 37 que pretende impedir o Ministério Público de investigar tornando esta atividade uma competência exclusiva das polícias.

Estabelecer mecanismos que propiciem uma maior proximidade do cidadão com o Poder Público, principalmente no âmbito municipal e regional, satisfaria inúmeras demandas que fariam do eleitor um ator no cenário político. Disso não tenho dúvidas! Mas que tal se o Planalto propusesse neste primeiro momento leis mais rígidas de controle e de combate à corrupção? Tratar a "corrupção dolosa (quando há intenção) como crime hediondo", conforme a presidenta também sugeriu hoje, parece-me uma ideia mais sensata e que corresponde melhor aos anseios populares. Principalmente se forem adotados meios mais efetivos de controle social e normas preventivas do desvio do dinheiro público.

Vamos continuar de olho! O povo quer mais, deve ser ouvido, e ainda precisamos compreender onde as maiores demandas se manifestam na sociedade brasileira. Inclusive sobre as reformas políticas adequadas para que, futuramente, a convocação de uma Assembleia Constituinte não se torne uma afiada espada de dois gumes.


OBS: Imagem acima extraída dos arquivos da Agência Brasil.

É preciso cautela diante da agitação do "mar"!



"Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar Grande." (Daniel 7:2)

"Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia." (Apocalipse 13:1)

Dentro da imagística bíblica, o mar seria uma espécie de figura comum para a tumultuosa agitação das massas, o que muitas das vezes pode trazer perigo e se tornar uma oportunidade para o mal. No sonho do profeta Daniel, são mostrados quatro "animais", representando quatro reinos, os quais dominaram a parte leste da bacia do Mediterrâneo entre o século VI a.C e o V de nossa era. Já no livro do Apocalipse, a besta que emerge do mar seria identificada como o poder perseguidor que se levantou contra a Igreja de Cristo vindo de Roma (as "sete cabeças" seriam os sete montes ou colinas da capital do antigo Império).

Nos mitos do antigo Oriente Próximo, as profundezas das águas oceânicas representariam o caos e a morte.  Há um relato mítico não bíblico sobre a criação do mundo onde "o Mar" é apresentado como um monstro a ser morto pelos deuses numa batalha titânica. Da carcaça que sobra do dragão despedaçado surge o Universo. A ameaça do caos à ordem estabelecida é então subjugada pelos deuses, os quais dominam sobre as "ondas". Paralelamente, nas Escrituras Sagradas, o mar não ameaça o Altíssimo, mas obedece às suas ordens soberanas.

Adotando a mesma figura de linguagem das antigas profecias ao momento político tenso em que a nossa nação brasileira, repentinamente, passou a viver nas ruas das grandes cidades este mês de junho, caracterizado por um tsunami de protestos, há que se ter sempre a cautela necessária diante da agitação do "grande mar". Vejo que os movimentos ocorridos nas últimas semanas, seguindo uma tendência que parece ser mundial, abriram inúmeras possibilidades para o futuro e nos colocou num caminho sem volta onde os odres velhos não poderão conter mais a fermentação do vinho novo. Tais manifestações, de certa maneira, representam uma tentativa de desconstrução de tudo aquilo que causa efeitos ruins sobre o cotidiano do brasileiro, mas não ficou bem claro como o povo deseja fazer sua reedificação.

A presidenta Dilma bem posicionou-se nesta última sexta-feira (21/06) dando a entender que será proposto um diálogo entre governos e sociedade, mas nem todos deram ouvidos por causa da nossa crise de representação, a qual é fruto de uma falta de confiança generalizada nas instituições democráticas. Porém, este deveria ser um momento de uma pausa e aguardarmos atentamente o Planalto, os governadores e os prefeitos, bem como as lideranças do Legislativo, estabelecerem uma agenda de trabalhos para iniciarmos uma conversação produtiva. E sendo assim, se persistir um clima continuado de protestos, não tem como fluir a comunicação desejada entre as partes.

Penso que a população já expressou suficientemente o seu sentimento nesses últimos dias e o recado dado foi entendido pelos governantes. Assim, a manutenção dos protestos em nível nacional pode conduzir a uma crise sem limites dando espaço para a atuação de forças negativas que querem romper com a democracia, criando um clima de guerra civil, e pondo a perder as conquistas já obtidas até aqui. Lamentavelmente, tem faltado mais espiritualidade na vida do brasileiro e foi isto o que escrevi num dos dois artigos publicado ontem neste blogue:

"Nesses dias em que a nação brasileira tem protestado contra inúmeras injustiças, sinto que falta a muitos aprender o exercício da cidadania junto com o desenvolvimento da espiritualidade, a qual não pode ser vista como um mero segmento de nossas vidas. Ao invés de violência e vandalismo, por que não orar?! Quanto a isto, temos muito o que aprender com os egípcios que não são cristãos. Recordo que, durante a Primavera Árabe, inúmeros manifestantes ajoelhavam-se para orarem pra Alá às sextas-feiras na Praça Tahrir ("Praça da Libertação"). Confrontos com a polícia aconteciam, assim como as provocações dos defensores do ditador Hosni Mubarak e dos opositores. Contudo, eles significavam aquele momento histórico na religião que seguem, bem como os minoritários cristãos de lá clamando a Allāh al-ʼAb (Deus, o Pai), coisa que nós brasileiros negligenciamos"

Livres das amarras de qualquer tradicionalismo religioso, penso que podemos buscar uma espiritualidade de maior qualidade nesse preocupante momento de tensão política. Quantos realmente têm orado ou feito suas preces pelo país?! Ou será que simplesmente nos deixamos envolver de maneira passiva pelas energias que agitam o nosso planeta e a nossa sociedade indo atrás de qualquer discurso político?

Creio que pessoas espiritualizadas e com uma fé de raízes, a exemplo do profeta Daniel, podem influenciar decisivamente a sua geração fazendo a diferença. E a orientação que eu daria agora é que devemos lutar pelo surgimento de oficinas de debates capazes de construir soluções para o Brasil e suas cidades, com foco principalmente no município que é o lugar onde a participação popular pode ser efetivamente exercida. A meu ver, torna-se fundamental a promoção de uma democracia de proximidade capaz de reforçar a influência de seus cidadãos sobre o seu cotidiano e nas atividades comunitárias.

Devemos crer num futuro vitorioso para o nosso país. Protestar não é a única maneira das pessoas se expressarem e, se a presidenta abriu as portas para o diálogo, devemos aproveitar esta oportunidade dada e não desperdiçá-la. É hora de participarmos da construção do novo. Os que querem continuar provocando atos de violência e de vandalismo caminham na contramão do processo evolutivo, tentando retardar o desenvolvimento da nossa democracia tão arduamente conquistada. Porém os que amam de fato o Brasil entenderão que agora é preciso colaborar propositivamente na construção de um país mais justo, solidário, verdadeiramente democrático, rígido quanto à corrupção e onde o acesso do cidadão às instâncias decisória do poder seja facilitado.

"Mas os santos do Altíssimos receberão o reino e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade" (Dn 7:18).


OBS: A imagem acima foi extraída do site da Agência Brasil e se refere ao protesto ocorrido na cidade de Niterói dia 19/06/2013.

domingo, 23 de junho de 2013

Nossa crise de representação e de comunicação



Quando protestos ocorre no meio social geralmente é porque não está fluindo o diálogo. Alguém quer ser ouvido.

Atualmente, os governos, bem como os órgãos do Legislativo, têm se utilizado de vários instrumentos de comunicação e de participação sem promoverem um diálogo satisfatório com a sociedade. Os conselhos de gestão, as ouvidorias, a presença das instituições públicas nas redes sociais da internet, as consultas populares, os eventos sobre assuntos específicos, as notícias oficiais e muito menos as sessões nas Câmaras de Vereadores alcançam esse objetivo.

Falta confiança! E a ausência desse sentimento trás desmotivação e desinteresse. As pessoas não querem perder mais tempo com blá-blá-blá das autoridades. Acompanhar as discussões sobre o orçamento pra quê, se depois os recursos podem ser remanejados pelo prefeito desrespeitando a vontade popular? Como o cidadão poderá contribuir com seriedade se o dinheiro dos tributos pagos continua sendo mal investido e, não raramente, desviado de maneira ilícita?

Existe um interesse público evidente na sociedade, o qual nada mais é do que o somatório dos anseios individuais de cada brasileiro. Quado os cidadãos se identificam a este respeito, eles expressam o que querem. Se não encontrarem a devida correspondência estatal (a receptividade em ouvir e o recebimento de uma resposta adequada às necessidades), uma alternativa que surge é ir às ruas protestar.

Noto que hoje o cidadão deseja ser também ator no cenário político e isto precisa ser visto com bons olhos. Precisamos criar uma maneira para que as pessoas sejam  atraídas para um diálogo permanente com o Poder Público e passem a acompanhar com maior interatividade os acontecimentos de nossa vida política. Os recursos tecnológicos de hoje já permitem a inclusão de todos numa grande assembleia sem precisarmos mais sair de casa. Existem  meios de se tornar a democracia brasileira menos indireta e dar ao cidadão um espaço maior.

Para que isso ocorra, as pessoas precisarão tomar consciência da agenda política de seus municípios, o que deve ser organizado com seriedade. Os principais assuntos entrariam em pauta duas vezes, com ampla divulgação. Uma ocasião para serem apresentados e outra para a aprovação pela Câmara Municipal (ou pelo conselho gestor). No intervalo entre a apresentação e a aprovação, o povo teria a oportunidade de debater e de definir aquilo que pretende, cabendo aos governos, junto com a imprensa, promover a consulta popular.

O grande desafio dessa proposta seria justamente a condução do período de debates. Como garantir que o cidadão será realmente ouvido? De que maneira a sua voz chegará até às instâncias de decisão?

Além dos instrumentos de pesquisa e de consulta, os quais seriam anexados ao processo administrativo ou legislativo em curso, entrariam em cena a atuação dos partidos políticos bem como das entidades de representação da sociedade (associações de moradores, sindicatos e ONGs). Todas elas ganhariam direito de voz, mas não de voto, nas sessões do Legislativo, podendo apresentar qualquer proposição com os mesmos direitos que um vereador, solicitar inclusão em pauta, etc. Nas cidades menores, então, idêntica oportunidade poderia ser concedida a todo o colégio eleitoral, permitindo a qualquer munícipe entrar com projetos de lei e com emendas orçamentárias.

Entretanto, nas grandes cidades, não consigo ver outro caminho senão pela via da representação popular e aí teremos que resolver alguns problemas quanto a este aspecto. Ou melhor, muitos. Pois do que adianta democratizarmos ao máximo o processo decisório se as entidades da sociedade civil e seus partidos políticos continuam sendo verdadeiros feudos? Que voz o militante partidário tem em sua agremiação? As Executivas Estaduais sabem respeitar sempre os Diretórios Municipais nas escolhas destes? E no âmbito municipal, os partidos são realmente abertos para dialogarem o tempo inteiro com as respectivas bases? Quantas reuniões costumam fazer por ano com os seus afiliados? E qual a sujeição dos vereadores e dos deputados às legendas pelas quais foram eleitos?

Sendo os partidos políticos entidades livres da intromissão estatal nos seus assuntos internos, cabe a cada um desses grupos saber se reorganizar conforme os ideais de seus membros. Neste aspecto, as leis se auto-limitam. Daí, se num PX da vida falta democracia e maior transparência em suas convenções, quem precisa cuidar disso são os próprios afiliados, os quais jamais devem se acomodar. Se procurarem o Judiciário, valerão as normas estatutárias na solução do litígio em lugar das leis.

Pois é. Duro constatar isso, mas a verdade é que vivemos num Estado mais democrático do que a sua sociedade. Insatisfeitos nós estamos com os governos e parlamentares que elegemos. Contudo, onde está a nossa disposição real para nos reorganizarmos com a devida qualidade? Por que permitirmos que os nossos partidos, sindicatos, associações de moradores, uniões estudantis e ONGs fiquem abandonados nas mãos de poucos? Seria por deficiência na formação política, falta de interesse ou porque, no fundo, ainda pensamos ser mais cômodo deixar o outro decidindo no nosso lugar?

Acontece que não vejo outro caminho. No artigo que escrevi dia 19/06, Por que esse negócio de "sem partido"?!, comentei que

"(...) se os manifestantes estivessem melhor organizados sob o comando de entidades, sejam partidos políticos que disputam eleições ou não, independentemente da ideologia que seguem, de fato seria muito mais fácil de negociar com eles. Tenho pra mim que a rejeição da sociedade aos partidos políticos enfraquece o regime democrático brasileiro. Uma democracia forte é feita com partidos fortes, sindicatos fortes, associações de moradores fortes e ONGs fortes (...)" 

Assim sendo, não vejo outro caminho senão encararmos a tarefa de fortalecimento dos partidos políticos brasileiros, tornando-os transparentes, democráticos e de atuação dinâmica. É bom que as pessoas se filiem e participem, não se esquecendo de reverem as normas estatutárias.

Nesta última sexta-feira (21/06), a presidenta Dilma fez o seu respeitável pronunciamento e precisamos agora acompanhar quais serão os próximos passos. Deve-se então dar uma pausa nos protestos mas sem tirarmos os olhos do que será feito. As reivindicações populares precisam ser melhor conhecidas e, se o governo decidiu elaborar uma pauta, aguardemos com atenção.

Torço para que as promessas da nossa presidenta corram com a devida velocidade para a felicidade geral da nação. E que seja bem rápido!

A busca de Jesus por momentos de solidão oracional



"Porém o que se dizia a seu respeito cada vez mais se divulgava, e grandes multidões afluíam para o ouvirem e serem curadas de suas enfermidades. Ele, porém, se retirava para lugares solitários e orava" (Lucas 5:15-16; ARA)

Intrigante como que a maioria das pessoas não consegue ficar a sós, motivo pelo qual fogem da calmaria e da aconchegante Divina Presença. É como se elas estivessem correndo de si mesmas.

Com Jesus, porém, não era assim. Além do que consta na passagem bíblica citada acima, fazia parte da habitualidade do Mestre procurar momentos em que pudesse estar a sós com o Pai (Mt 14:23; Mc 1:35; Lc 6:12; 9:18; 11:1; 22:41). No Evangelho de Lucas, este importante detalhe da vida de nosso Senhor vai introduzir o ensino sobre o modelo oracional resumido do Pai Nosso no capítulo 11.

Já naqueles tempos, os judeus estavam acostumados a fazer orações coletivas no Templo e nas sinagogas. Jesus, porém, estimulou o hábito de que o seu seguidor também ficasse a sós com Deus. Não que ele tivesse sido o primeiro a agir daquela maneira pois os profetas, Moisés e os patriarcas bíblicos já passaram por essa experiência. Porém, o que se verifica na conduta do Mestre é que ele tinha um relacionamento pessoal com o Pai e desejava que seus discípulos desenvolvessem isto também. Inclusive, chamar Deus de "Pai" significa demonstração de intimidade espiritual.

Nos versículos que transcrevi de Lucas, Jesus estava no auge de sua fama. Os milagres de cura e o seu ensino com autoridade faziam com que multidões desejassem estar com ele. A esta altura, bastava que o Mestre entrasse numa aldeia da Galileia que grupos de pessoas já vinham atrás os seus passos, novos casos de doentes surgissem e o atendimento às demandas não era recusado. Tratava-se, portanto, da nova rotina do carpinteiro de Nazaré.

Se nos lembrarmos das tentações sofridas por Jesus no deserto (Lc 4:1-13) talvez venhamos a compreender um dos motivos de sua conduta. Avançando no texto do Evangelho, já na agonia do Getsêmani, leremos que Jesus orientará os seus discípulos sobre a importância de orar para lidarem com as tentações:

"Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação" (22:40)

Acredito que Jesus não queria perder o foco da sua missão. Como homem, ele tinha consciência da vulnerabilidade de suas emoções e do quanto os sentimentos de vaidade podem ser destrutivos para um líder que se dispõem a cumprir a vontade de Deus. Além do mais, era preciso lidar com as adulações, as ameaças, a incompreensão de muitos, os desprezos, as mentiras caluniadoras que inventariam a seu respeito, as perseguições, a imaturidade dos discípulos, os abalos emocionais provocados pelas dores do outro, as frustração de nem sempre poder ajudar alguém, as quebras de paradigma, etc.

A partir deste momento, o ministério de Jesus passará a ser confrontado com os religiosos da época. Seu próximo milagre, que é a cura de um paralítico em Cafarnaum (Lc 5:17-26), será motivo de perplexidade entre os escribas e fariseus que estavam no local por causa da declaração de perdão que antecedeu a cura. E aquilo era entendido como algo blasfematório pelas mentes julgadoras daqueles homens, os quais, ao invés de saborearem os ensinos, destilavam preconceitos. E talvez isto ocorresse por não ter sido Jesus formado numa escola rabínica tal como acontece hoje contra os pregadores sem graduação teológica obtida em seminários.

Ao que parece, os momentos a sós com Deus foram fundamentais para que Jesus encontrasse êxito no seu trabalho ministerial. No capítulo seguinte, verso 12, leremos que uma noite de oração precedeu a escolha dos nomes dos doze apóstolos. Ou seja, uma decisão importante não foi tomada de qualquer maneira baseada na impulsividade. Acredito que o Salvador passou horas durante a madrugada colocando aquela questão inteira diante do Pai, apresentando cada alternativa sugestiva que vinha em sua mente e, quando nasceram os primeiros raios de sol, ele já devia saber pelo Espírito Santo com quem poderia contar para aquela grande obra.

Assim também nós precisamos seguir os mesmos passos de Cristo Jesus buscando um relacionamento íntimo com Deus afim de que façamos a sua vontade e não a nossa, tendo como foco a construção do Reino Celestial na Terra. Para que as nossas necessidades cotidianas sejam apresentadas ao nosso Provedor e não sejamos controlados pela desesperadora ansiedade. Para que seja exercitado o perdão quanto às ofensas recebidas a cada momento no nosso trato com o outro (nas ruas, na família, no trabalho e até nas nossas congregações). E também para que, através da exposição das fraquezas de sentimentos diante do Pai, renovemos as forças diante da tentação de nos desviarmos do caminho certo e não tomarmos os atalhos enganosos.

Nesses dias em que a nação brasileira tem protestado contra inúmeras injustiças, sinto que falta a muitos aprender o exercício da cidadania junto com o desenvolvimento da espiritualidade, a qual não pode ser vista como um mero segmento de nossas vidas. Ao invés de violência e vandalismo, por que não orar?! Quanto a isto, temos muito o que aprender com os egípcios que não são cristãos. Recordo que, durante a Primavera Árabe, inúmeros manifestantes ajoelhavam-se para fazer suas preces pra Alá às sextas-feiras na Praça Tahrir ("Praça da Libertação"). Confrontos com a polícia aconteciam, assim como as provocações dos defensores do ditador Hosni Mubarak e dos opositores. Contudo, eles significavam aquele momento histórico na religião que seguem, bem como os minoritários cristãos de lá clamando a Allāh al-ʼAb (Deus, o Pai), coisa que nós brasileiros negligenciamos.

Estudando o comportamento de Jesus, entendo que não precisamos depender das tradicionais chamadas melodiosas para a oração como ocorrem nos países muçulmanos feitas pelo almuadem nas mesquitas - o adhan. Ter um número fixo de preces diárias pode até ser uma método interessante para nos habituarmos ao comportamento religioso, mas, por si só, não produz a desejada intimidade com Deus. Esta só se desenvolve quando nos abrimos por inteiro para o Pai e nos entregamos sem reservas como se estivéssemos deitados num divã, deixando que cada sentimento seja graciosamente tratado.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo no deserto do pintor russo Ivan Nikolaevich Kramskoi (1837-1887). Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Kramskoi_Christ_dans_le_d%C3%A9sert.jpg

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Após conseguir diminuição da tarifa, é preciso dar uma pausa nos protestos



Assistindo às notícias do dia, logo no começo da tarde, achei bem sensato e maduro o posicionamento do Movimento Passe Livre em suspender novas convocações de protestos na cidade de São Paulo. Foi o que declarou Douglas Beloni, integrante do grupo, numa entrevista à rádio CBN, conforme extraído do site do Jornal do Brasil:

"O MPL não vai convocar novas manifestações. Houve uma hostilidade com relação a outros partidos por parte de manifestantes, e esses outros partidos estavam desde o início compondo a luta contra o aumento e pela revogação (...) Nos últimos atos pudemos ver pessoas pedindo a redução da maioridade penal e outras questões que consideramos conservadoras. Por isso suspendemos as convocações (...) Continuaremos lutando pela tarifa zero, colhendo assinaturas para viabilizar um projeto de lei nesse sentido.

Penso que o objetivo agora das manifestações que continuarem deva ser a conquista na redução das passagens de ônibus em todas as demais cidades. Aqui onde moro, em Mangaratiba, cidade do litoral sul fluminense, está sendo organizado um protesto para esta próxima terça-feira (25/06). Pretendo participar pois, afinal de contas, pagamos muito mais caro para andar de ônibus no município do que nas cidades capitais do país. Injustificável!

Entretanto, sei que os movimentos no interior acabam sendo bem diferentes do que nos grandes centros urbanos pois a política local não se conecta totalmente com as questões nacionais. Por isso, considero sensato pedir o começo dos protestos aqui e propor o fim deles nas cidades onde seus respectivos prefeitos já concordaram em reduzir o preço dos transportes.

Neste sentido, entendo ser necessário que a sociedade brasileira faça uma avaliação de tudo o que aconteceu nos últimos dias, dê uma pausa, respire fundo e aguarde uma resposta das instituições oficiais. Pois, se os prefeitos e governadores já se dispuseram a reduzir as tarifas, é uma sinalização de que estão dispostos a dialogarem quanto às outras reivindicações também.

Amanhã é sábado. Dia de jogo e de descanso semanal. Não é razão para irmos às ruas protestar. Os que estão inconformados com os altos gastos de dinheiro investido nas reformas dos estádios podem muito bem fazer isso um outro dia sem atrapalharem a diversão das demais pessoas. Aliás, a sociedade já mostrou suficientemente a sua indignação contra o desperdício dos recursos públicos por causa da Copa de 2014. Agora temos que deixar as autoridades se pronunciarem.

Portanto, aproveitemos o final de semana e vamos torcer juntos pela seleção. Que seja o povo brasileiro duplamente vitorioso: no campo e na política.

Um feliz descanso a todos com bastante paz!


OBS: Foto da Agência Brasil que mostra a manifestação do Movimento Passe Livre em São Paulo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Quero, fica limpo!"



Mesmo com as atenções voltadas para os protestos e a Copa das Confederações, não pretendo deixar de ler a Bíblia e nem de dar continuidade ao estudo que tenho feito das Sagradas Escrituras, conforme venho compartilhado neste blogue.

Dando prosseguimento à leitura do Evangelho de Lucas chamou-me a atenção a maneira como o leproso pediu a Jesus para ser curado da lepra, demonstrando grande confiança ao se aproximar do Mestre:

"Senhor, se quiseres, podes purificar-me" (Lc 5:12; ARA)

Além da evidente fé, há em suas palavras sujeição e obediência reverente pelo enviado de Deus. O homem leproso reconheceu em Jesus a autoridade dada pelos céus e creu com elevadas expectativas na sua compaixão.

Positivamente, o Senhor Jesus respondeu tocando o homem com suas mãos, o qual ficou instantaneamente livre da doença:

"Quero, fica limpo!" (v. 13)

Embora, na atualidade, a lepra não seja mais o grande terror da humanidade, eis que, no passado, não foi assim. Nos tempos de Jesus, quando a Medicina era bem atrasada, pessoas ficavam desfiguradas enquanto outras até morriam. E, sendo também precários os meios diagnósticos, a única maneira de controle da enfermidade era deixar o indivíduo de quarentena e evitar o contágio da comunidade, ficando a avaliação sob a análise do sacerdote. Aliás, a própria legislação mosaica tinha normas e procedimentos a esse respeito que se encontram em Levítico 13:1 a 14:32.

"Disse o SENHOR a Moisés: Esta será a lei do leproso no dia da sua purificação: será levado ao sacerdote; este sairá fora do arraial e o examinará. Se a praga da lepra do leproso está curada" (Lv 14:1-3)

Entretanto, Jesus colocou-se no lugar daquele que sofria exclusão social pela sua condição de saúde. Suas palavras confirmando o desejo para que ficasse limpo significam um sim para a cura e para a aceitação sem restrições do outro ser humano. Tratava-se da quebra de um preconceito fortíssimo em sua época, o qual era decorrente de uma má interpretação da legislação mosaica. Esta determinava a separação essencialmente por uma necessidade social de preservar a saúde coletiva:

"As vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e os seus cabelos desgrenhados; cobrirá o bigode e clamará: Imundo! Imundo! Será imundo durante os dias em que a praga estiver nele; é imundo, habitará só; a sua habitação será fora do arraial" (Lv 13:45-46)

No episódio em comento, o evangelista quis mostrar que os cuidados para se evitar o contágio não poderiam virar uma paranoia. Corajosamente, Jesus tocou no leproso quando determinou que o queria "limpo". Para o Mestre imunda era a doença e não a pessoa.

Entretanto, o Senhor não rasgou a legislação religiosa de seu povo e nem dispensou o leproso do controle da doença ou do ritual exigido para a "purificação" (Lc 5:14). Como não era nenhum curandeiro maluco, Jesus orientou que o leproso se apresentasse ao sacerdote que, nestes assuntos, agia como um médico da comunidade. Só com a autorização sacerdotal a pessoa era reintegrada ao convívio com o restante do povo.

Quando surgiu a epidemia da AIDS, eu era só uma criança impúbere. Recordo muito bem dos preconceitos criados contra aqueles que eram considerados "grupos de risco": homossexuais, prostitutas, usuários de drogas injetáveis e os pacientes hemofílicos. Por causa da ignorância das pessoas, tinha gente que evitava apertar as mãos, abraçar ou beijar quem fosse portador do vírus HIV ou suspeito de ter a doença.

Ainda assim, em nenhum momento da história a AIDS chegou aos pés do que foi a hanseníase. Na Idade Média, os leprosos eram obrigados a usar um sininho afim de anunciar que estavam presentes nas ruas das cidades europeias e as pessoas pudessem se afastar deles. Aqui no Brasil, existiram leis como a de n.º 610/49 que obrigavam a captura e a segregação dos portadores da moléstia em leprosários. Somente na década de 60 foram revogadas as normas que impunham o isolamento compulsório. Apesar disto, o retorno do paciente ao seu convívio social continuou bem dificultoso.

Acho importante dizer que há outras "lepras" além das que dão na pele. Falo, metaforicamente, dos nossos problemas comportamentais. Certa vez um pastor me confessou que ele sentia atração sexual por homens e também por mulheres que não eram a esposa dele, mas que não alimentava em sua vida nenhum tipo de relacionamento íntimo extraconjugal. Esforcei-me para ouvi-lo com humanidade, sem me considerar moralmente superior, e seu relato serviu-me de aprendizado para que todos nós possamos conviver amorosamente. Seja numa igreja, numa escola, num local de trabalho, nas ruas ou mesmo no próprio lar.

"Quero, fica limpo"! Este é o recado do Salvador que ecoa até hoje em nossas mentes para que possamos buscar a inclusão de todos sem preconceitos. Graças a Deus que a ciência evoluiu, mas o amor pelo próximo jamais depende do controle que possamos ter sobre as enfermidades. Afinal, aos olhos bondosos de Deus, estamos todos limpos pois o que vale é a integridade do nosso caráter.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo purificando um leproso (1864) do artista francês Jean-Marie Melchior (1827-1913). Foi extraído do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:ChristCleansing.jpg

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Por que esse negócio de "sem partido"?!




Nas transmissões sobre os protestos que têm acontecido nas ruas das principais cidades brasileiras, grupos de manifestantes gritam palavras de ordem tentando impedir o uso de bandeiras das agremiações partidárias entre seus companheiros presentes:

"Sem partido"!?

Qual o problema dos partidos políticos participarem?

Lendo o informativo de hoje do cientista político César Maia, ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, deparei-me com o seguinte comentário abordando as dificuldades em se negociar os valores das tarifas de ônibus:

"Como o movimento é mobilizado em Rede, os “negociadores” não têm poder de representação para decidir nada. Tem que retornar às Redes Sociais com as informações e deixar que elas debatam o que fazer. Não é simples. É muito difícil!"

Neste aspecto, César tem toda a razão no que ele diz. Pois, se os manifestantes estivessem melhor organizados sob o comando de entidades, sejam partidos políticos que disputam eleições ou não, independentemente da ideologia que seguem, de fato seria muito mais fácil de negociar com eles.

Tenho pra mim que a rejeição da sociedade aos partidos políticos enfraquece o regime democrático brasileiro. Uma democracia forte é feita com partidos fortes, sindicatos fortes, associações de moradores fortes e ONGs fortes. E aí quererem impedir as agremiações partidárias de se manifestarem com bandeiras que contêm suas respectivas legendas, ou símbolos históricos de luta popular, é, no mínimo, um atentado contra a liberdade de expressão.

Registre-se o que dispõe a Constituição Federal em seu artigo 5º, incisos II, IV, VI, VIII e IX, além da existência dos partidos ser também assegurada pela Carta Magna (art. 17).

Viva as manifestações pacíficas! E que possamos prestigiar a participação dos partidos políticos na construção de nossa História.


OBS: Imagem extraída do blogue O homem revoltado em http://ohomemrevoltado.blogspot.com.br/2010/01/blog-post_28.html

"Sob a tua palavra lançarei as redes"



O episódio da pesca maravilhosa é inserido no Evangelho de Lucas como um dos momentos iniciais do ministério de Jesus. Tal acontecimento é metafórico e de forte significado para as missões evangelísticas do cristianismo de todas as eras.

Um dos elementos chaves para se interpretar essa passagem seria a presença das multidões que comprimiam Jesus para ouvirem a Palavra de Deus nas margens do Mar da Galileia, que é o Lago de Genesaré ou de Tiberíades (Lc 5.1). Tratavam-se de pessoas sedentas pelo ensino do Mestre dentre as quais, provavelmente, estariam também enfermos e gente oprimida por forças espirituais malignas. Para pregar, o Salvador entrou no barco de Simão Pedro e pediu ao discípulo que o afastasse a uma pequena distância da praia (v. 3).

Tendo terminado de falar ao público, nosso Senhor conduziu uma situação para que Pedro e os primeiros seguidores compreendessem qual seria a participação deles em seu operante ministério. Sabendo que eram pescadores, Jesus mandou Pedro lançar as redes sobre as águas. A princípio o discípulo hesitou um pouquinho, argumentando de que se tratava de uma missão impossível visto que tinham passado a noite inteira tentando capturar peixes sem sucesso. Porém, decidiu obedecer (v. 5):

"Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes" - ARA

O resultado foi totalmente o contrário do que, pela lógica e experiência, Pedro e os demais homens do mar aguardavam acontecer. Informa o autor que a multidão de peixes apanhados era tanta que as redes chegavam a se romper. Pediram ajuda aos pescadores de um outro barco que ali estava e as duas embarcações quase afundaram (v. 7).

Com a ocorrência do milagre, Pedro sentiu-se indigno diante de Jesus. Talvez porque teria levantado dúvidas quanto à orientação que lhe fora dada antes de cumpri-la. Ou então porque estava na presença de alguém divinamente enviado e tomou consciência de sua pecaminosidade. O Mestre, porém, mostrou-se compreensivo com o seu discípulo e o incluiu na sua ação ministerial (v. 10):

"Não temas; doravante serás pescador de homens"

A partir de então, Pedro, Tiago e João tornam-se seguidores de Jesus, segundo o Evangelho de Lucas (v. 11), ainda que Simão tivesse sido apresentado anteriormente como alguém que recebeu o Senhor em sua casa (4:38). Diferentemente dos outros sinóticos (Mt 4:18-22 e Mc 1:16-20), a vocação desses discípulos não ocorre de maneira repentina, mas é detalhadamente contextualizada em Lucas, dando melhores esclarecimentos sobre o quem vem a ser essa "pecaria de homens".

No artigo A libertação dos homens peixes, o qual escrevi na blogosfera dia 15/12/2010, tendo por base inicial o texto de Mateus, fiz uma comparação com Jeremias 16:16 e Habacuque 1:14-15 em que imagens verbais semelhantes ganham um sentido negativo nos escritos dos dois profetas bíblicos. Lendo na época O Autêntico Evangelho de Jesus, de Geza Vermes, observei que a locução “pescadores de homens, além de ser pré-existente na cultura judaica, poderia estar relacionada com as atividades de taumaturgia de Jesus conforme as narrativas seguintes de Mateus e de Marcos. Em Lucas, porém, as curas e os exorcismos ocorrem antes da pesca maravilhosa, já no capítulo 4 do livro. Mas a ordem dos fatores não altera o produto pelo que posso reproduzir aqui trecho do mesmo comentário feito há quase três anos antes:

"Pelo poder do Espírito Santo, após seu batismo, Jesus cumpriu o começo do seu ministério com curas milagrosas e expulsando demônios, o que significou a confirmação de sua obra messiânica, a qual consiste na libertação dos homens das redes de Satanás. Ou seja, até a manifestação de Jesus, o povo desviado de Deus fora capturado pelos anzóis dos inimigos e agora estava sendo liberto por quem de fato em poder para libertar. Numa metáfora, os caldeus e os povos invasores de Israel, anunciados pelos profetas como instrumentos do juízo divino, representam também o domínio espiritual do diabo sobre os homens. Porém, com a chegada do Messias e do Reino de Deus, o adversário é expulso, pois Jesus, com sua autoridade, dá ordens ao demônio que saia. A pesca, a partir de então, passa a ser a pescaria de Deus para a liberdade e salvação das pessoas."

Não podemos nos omitir diante de um chamado tão importante!

O anúncio do Evangelho é uma obra libertadora em todos os sentidos. Seja quanto às forças espirituais malignas, que assediam as mentes das pessoas provocando doenças físicas ou psíquicas, bem como em relação às opressões que se manifestam nos planos político-econômico-social-religioso. Aliás, tudo está intimamente associado e integra uma realidade só. Logo, a pregação das boas novas do Reino de Deus vai se opor a todas as formas de exploração do ser humano. Quem diz sim ao chamado missionário do Mestre, deve corresponder também neste aspecto inseparável do todo.

Finalmente, extraio da passagem bíblica em análise mais um ensinamento. Quando Jesus mandou que Pedro lançasse as redes, ele e os demais pescadores já deveriam estar cansados e desanimados porque passaram a noite trabalhando no lago e nenhum peixe apanharam. Assim também nós, discípulos do Mestre neste século XXI, também nos sentimos da mesma maneira por causa da falta de resultados. Evangelizamos, fazemos obras sociais e tomamos parte em movimentos políticos, mas a situação parece não mudar. Então, quando decidimos "lavar as redes" para finalizarmos a "viagem de pesca", o Senhor nos manda novamente retornarmos às multidões.

Neste ano de 2013, em que mais de 200 mil pessoas já foram às ruas para protestarem contra o aumento das passagens de ônibus e utras questões relevantes, percebo aí o anúncio de uma grande pesca. Sem prendermos as nossas atenções quanto aos minoritários manifestantes desordeiros, os quais praticam o vandalismo e violentam policiais, devemos dar importância ao fato de que o povo está se importando com os seus problemas. A inflação e o preço acumulado das tarifas nos transportes urbanos têm oprimido a população brasileira, porém o Evangelho de Cristo faz com que possamos vislumbrar um cenário diferente pela adoção de medidas adequadas para a economia do trabalhador ser verdadeiramente respeitada.

Que não desanimemos e lancemos outra vez as nossas redes nas águas!


OBS: A ilustração usada acima refere-se ao quadro A Pesca Miraculosa do artista francês James Joseph Tissot (1836-1902). Foi pintado entre 1886-1894 e se encontra atualmente no Museu do Brookyn, Nova York. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia.

Havendo uma redução nos reajustes das tarifas de transportes, os protestos esvaziariam?



Nesta terça-feira (18/06), após mais de uma semana de reivindicações, vários prefeitos já admitiram a possibilidade de renegociarem os valores dos reajustes das tarifas nos transportes públicos. Em Porto Alegre, na noite do dia 17, o pedetista José Fortunati propôs diminuir a passagem para R$ 2,80 através da isenção do ISS.

"A prefeitura está abrindo mão de 15 milhões anuais e sem orçamento. Alguém paga a conta. Estamos abrindo mão de um tributo", ressaltou o prefeito da capital gaúcha.

Já em São Paulo, que seria o epicentro das manifestações, Fernando Haddad (PT) dispôs-se a reunir com os integrantes do Movimento Passe Livre para debater as questões levantadas, tendo declarado à imprensa o seguinte:

"Eu gostaria de dizer que esse debate nos interessa. E nós queremos esgotar as possibilidades de entendimento, de compreensão desse fenômeno do transporte público, da mobilidade urbana na cidade de São Paulo (...) Nós temos aí um trabalho a fazer da parte do poder público e um trabalho a fazer do ponto de vista do empresariado, porque nós não temos receita para subsidiar a tarifa para além do esforço que está sendo feito"

Tenho a impressão de que, mesmo passando por dificuldades orçamentárias, os municípios deverão seguir por esse caminho, tendo em vista os incômodos perturbadores causados pelos protestos. Ainda mais com a realização da Copa das Confederações em que o mundo inteiro encontra-se de olho no nosso país.

Embora os movimentos tenham partido de grupos sem grande representatividade social, os protestos conquistaram rapidamente a adesão de mais pessoas. Percebi que o povo brasileiro foi, dia após dia, identificando-se com aquelas passeatas e direcionando para elas toda a sua insatisfação. Era como se houvesse uma demanda reprimida mas sem uma canalização política. O futebol, que em outras vezes absorveu essa energia, fracassou nos seus efeitos alienantes sobre as massas em 2013. A popularidade de Dilma, até poucas semanas atrás apontada como fator de uma reeleição em primeiro turno, foi terrivelmente arranhada com uma inesperada vaia recebida no último sábado no estádio Mané Garrincha.

É difícil prever quais serão os próximos rumos desses movimentos, se eles tendem a crescer mais ou simplesmente se esvaziariam com uma redução nas passagens de ônibus através de subsídios pagos oficialmente aos empresários do transporte. Mas tudo indica que esta é a aposta dos prefeitos já que as razões iniciais das passeatas foram motivadas pelos altos preços das tarifas. E, sendo assim, as propostas terão que ser ainda votadas pelo Poder Legislativo de cada localidade. No caso de São Paulo, ocorreria até uma complicada modificação orçamentária com cortes sabe-se lá aonde.

Pode ser que o sistema de concessões comece a ser revisto a partir daí. Isto porque, sendo curto o cobertor, para poder diminuir mais as tarifas só abrindo mão do lucro, o que significa a impossibilidade da iniciativa continuar atuando no setor ou um encarecimento cada vez maior dos subsídios. E aí por que pagaríamos ao empresário se o próprio governo pode prestar o serviço de transportes urbanos?

Suponho que, por motivo de estratégia, talvez muitas das lideranças desses movimentos recuem uma vez obtida a renegociação dos valores, mas não significa que os protestos terminariam de vez. Passeatas menos expressivas continuariam acontecendo com outras reivindicações e para 2014, ano do Mundial e das eleições, o aviso já estaria dado. O governo terá que soltar muito dinheiro para acalmar os ânimos.

Se o PT tivesse bola de cristal, teria desistido dessas loucas ambições de sediar uma Copa do Mundo e, em dois anos depois, as Olimpíadas. Como se vê, os eventos esportivos foram ingredientes desnecessários para a eleição de Dilma em 2010 e não podemos nos esquecer que, em 2002, o tucano José Serra não conseguiu vencer o opositor Lula mesmo com o pentacampeonato do Brasil obtido uns três meses antes. Ou seja, o poder do futebol de conformar as massas já estava falhando desde aquela época e o governo parece não ter se dado conta.

No exterior, a imprensa internacional até que fala bem dos protestos daqui e a Anistia Internacional acusa a polícia e não os manifestantes. Entretanto, não se pode jamais esquecer dos prejuízos causados ao turismo por causa da instabilidade política. As manifestações ocorreram em todas as cidades onde estão previstos os jogos da Copa de 2014 e quantos estrangeiros não poderão cancelar suas vindas para o Brasil?!

Suspender os eventos esportivos agora, na visão dos governantes, sairia uma "emenda pior do que o soneto". Mas, se em 2013, mais de 200 mil pessoas foram às ruas em todo o país, quantos não poderão ir aos protestos que deverão ocorrer no próximo ano e depois? Enfim, só o futuro pode dizer e podemos constatar claramente que o governo ficou numa posição bastante delicada.


OBS: Foto extraída da Agência Brasil em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/06/mais-de-100-pessoas-detidas-para-averiguacao-em-protesto-contra-o-aumento-da

terça-feira, 18 de junho de 2013

Um sábado de milagres em Cafarnaum



É muito gostoso fazer a leitura dos evangelhos conforme o ponto de vista do seu autor, procurando entender qual o recado espiritual que o texto quis transmitir para os seus destinatários. Por isso, uma das melhores maneiras de se fazer a leitura bíblica diária sequencial é mergulhando no que está escrito na perícope analisada, comparando com o que vem antes e com o que vem depois no mesmo livro.

Dando prosseguimento ao saboroso estudo do Evangelho de Lucas, ainda no capítulo 4, eis que, tendo Jesus sobrevivido ao conflituoso sábado em sua cidade de criação (ver o último artigo Jesus e o Shabat sem Shalom de Nazaré),  o autor nos mostra um segundo cenário com características totalmente opostas em Cafarnaum e que também ocorrerá no mesmo dia da semana. Ali, o Mestre entra para ministrar numa sinagoga, o seu ensino é bem recebido pelos ouvintes, os espíritos maus não resistem ao poder divino que estava sobre ele e, com o pôr do sol (término do Shabat), Jesus atende as multidões operando curas e milagres pela imposição de mãos (versículo 40).

Contrapondo-se ao comportamento rançoso dos nazarenos, os habitantes de Cafarnaum reconheceram a autoridade do Mestre e não o viam apenas como "o filho de José". Talvez a maioria dos presentes nem deve ter conhecido seu pai ou, pelo menos, não tinham uma relação de intimidade tão próxima com sua família a ponto de não atentarem para o poder de suas palavras. Pode-se dizer que, enquanto o livro de Mateus fala da autoridade do ensino de Jesus numa comparação com os escribas (Mt 7:28-29), considerados os teólogos da época, o mesmo não se aplica a este trecho de Lucas, onde o capítulo 4 faz um paralelo entre os comportamentos das pessoas em duas cidades distintas da Galileia.

É de se notar logo no começo do ministério do Salvador a sua atividade de taumaturgia que seria a capacidade parapsíquica de realização de milagres que deve ser dada por Deus. Na sinagoga, um homem possesso de espírito demoníaco parece ter tentado interromper a pregação do Mestre, afirmando ser Jesus "o Santo de Deus" (v. 34). Aquela influência maligna é então repreendida e afastada. Na casa de Simão Pedro, a sogra deste encontrava-se gravemente enferma e sua febre é repreendida vindo em seguida a cura (vv. 38 e 39).

Com base nesses acontecimentos, podemos dizer que fazem parte do anúncio do Evangelho de Cristo os trabalhos de cura e de libertação espiritual. Hoje em dia, muita gente com mentalidade agnóstica ignora a realização de milagres e já nem ora mais diante de doenças. Por outro lado, há muitos falsos pregadores por aí que buscam tirar proveito errado dos eventos "sobrenaturais" a ponto de não focarem no principal anúncio das boas novas que é o Reino de Deus.

Inegavelmente que tanto a cura de doenças quanto a libertação do assédio espiritual integram o Reino. Para que a vontade divina governe as nossas vidas e as comunidades das quais pertencemos, o mal não pode ter suas fortalezas instaladas. Promover a saúde compõe a nossa luta por um mundo melhor. Seja orando, prevenindo o desenvolvimento de enfermidades pelo cultivo de novos hábitos, ou reivindicando hospitais públicos decentes, tudo isso tem a ver com a proclamação do Evangelho nos quatro cantos do mundo.

Em relação ao mundo espiritual, não podemos jamais esquecer que a fisicalidade conhecida encontra-se dentro de uma realidade maior e que esta nem sempre é visível aos olhos humanos. Há espíritos que fazem o bem a exemplo dos anjos de Deus mencionados na Bíblia. Porém, também existem energias más incidentes sobre o comportamento da humanidade. Isto é, tratam-se de consciências opostas aos valores do Reino, as quais, não tendo um corpo físico, assediam as mentes mais vulneráveis a elas aproveitando-se as brechas abertas pelo pecado ou pelo envolvimento de forma errada da pessoa com o mundo espiritual, o que também seria ato pecaminoso.

Curioso que dois eventos narrados no texto do Evangelho ocorrem em dia de sábado, mas, nesse capítulo de Lucas, não são alvos de questionamento por ninguém como se Jesus tivesse violado o quarto mandamento. Talvez por terem sido socorros emergenciais, sem caracterizarem um atendimento rotineiro habitual. E o texto deixa implícito a maneira equilibrada como o Mestre reverenciava o Shabat, cumprindo a legislação mosaica. Pois, em momento algum, ele não descuidou da doença da sogra do seu discípulo, num reconhecimento evidente de que a valorização da vida vem em primeiro lugar. Contudo, aguardou para prestar os outros atendimentos quando o sol se pôs (na época bíblica o dia terminava com o fim da tarde e não à meia noite).

Creio que o Shabat deve ser encarado como um momento agradável de gratidão e de adoração a Deus. É o momento de curtirmos a vida deixando de lado as preocupações do cotidiano, celebrarmos a nossa existência, elevarmos o pensamento para coisas elevadas e descansarmos de todo o trabalho penoso da semana. Até as atividades de lazer que fazemos eu diria que devem estar de acordo com esse dia sagrado sem que o entretenimento acabe virando algo estressante. Também a espiritualidade não pode ser encarada como rotina religiosa de maneira que o nosso culto sabático precisa correr de forma tranquila evitando as petições acerca dos problemas enfrentados. Afinal, Deus está cuidando de tudo e só vale a pena orar excepcionalmente por alguma coisa em se tratando de assunto urgente.

A descrição do final daquele "dia perfeito" em Cafarnaum é mais um motivo de contrate com os nazarenos quando estes expulsaram Jesus da cidade (vv. 29 e 30). Diz o texto que as multidões insistiram para que o Mestre não as deixasse. O Salvador, porém, estando consciente da missão divina que precisava cumprir, apresentou transparentemente a sua justificativa e partiu para pregar nas sinagogas da região vizinha da Judeia.


OBS: A imagem usada acima refere-se às ruínas de uma antiga sinagoga em Cafarnaum. Extraí a foto do acervo virtual da Wikipédia sendo sua autoria creditada ao internauta alemão Berthold Werner, com data de 06/11/2008, conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Kafarnaum_BW_7.JPG

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Jesus e o Shabat sem Shalom de Nazaré



A passagem bíblica que fala sobre o retorno conflituoso de Jesus a Nazaré é algo que causa alguns incômodos ao leitor fazendo com que muitos evite refletir acerca de alguns detalhes encontrados no texto.

No Evangelho de Lucas, sem seguir uma cronologia rígida, Nazaré é propositalmente colocada como o primeiro relato de visitação a povoados feita por Jesus no exercício de seu ministério (4:16-30), muito embora dois versículos anteriores informem ter o Mestre percorrido outras localidades da região da Galileia (versos 14 e 15). Retornando à cidade onde fora criado por seus pais, Jesus participa de um Shabat na sinagoga onde é convidado para fazer uma leitura pública.

Quando se reúnem aos sábados nas sinagogas, os judeus fazem a costumeira leitura de uma determinada porção semanal da Torá (do Pentateuco que são os cinco livros de Moisés), chamada de Parashá haShavuá, a qual é posteriormente complementada por um trecho dos textos Neviim ou Profetas. E este costume, chamado de haftorá, talvez tivesse uma origem anterior à época de Jesus. Quem prestava este serviço, durante o culto sinagogal, levantava-se para ler, demonstrando reverência pela Palavra de Deus, e, depois, assentava-se para ministrar sua preleção.

Convidado para colaborar, Jesus cita Isaías 61:1-2 combinado com 58:6, lembrando um método homilético de exegese bíblica conhecido como midrash. E, embora o costume da haftorá pudesse já existir em seu tempo, parece-me que, neste caso, não teria sido o dirigente da congregação quem determinou especificamente qual trecho dos Neviim era para ler. Acho mais provável que Jesus teve uma oportunidade extra de pregar na sinagoga de sua cidade já que, anteriormente, nos é informado que "a sua fama correu por toda a circunvizinhança" (v. 14) e Nazaré faz parte da Galileia. Ou então, ele mesmo resolveu escolher, por si mesmo, quais partes do livro de Isaías compartilharia com o público fugindo conscientemente do habitual.

Tenho a impressão de que, até os trinta anos, Jesus possa ter vivido quase que anonimamente entre seus familiares e vizinhos em Nazaré. Apesar do episódio ocorrido em sua pré-adolescência, quando foi encontrado no Templo entre os doutores, é provável que ele fosse visto como um jovem comum da comunidade. Uma rapaz de bem, honesto, simples, trabalhador e que participava da vida religiosa da aldeia prestando os serviços na sinagoga dentro da normalidade. Em sábados anteriores, Jesus pode até ter sido chamado para colaborar no haftará, mas sem receber um destaque especial. Só que, neste específico shabat, já iniciado o seu ministério, foi diferente.

O trecho bíblico citado por Jesus é inegavelmente revolucionário por falar na evangelização dos pobres, na cura dos cegos e na libertação dos cativos e oprimidos, combinando com a apregoação do "ano aceitável do Senhor". Com aquela leitura, Jesus estava não somente apresentando as características do seu ministério como também convocando os ouvintes para tomarem uma posição ousada juntamente com ele. Daí a conclusão:

"Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir" (v. 21).

Transmitir as boas novas aos pobres, promover a inclusão dos marginalizados e libertar quem se acha preso a algum condicionamento político-econômico-social são tarefas para fazermos agora. No hoje! Por isso, tal passagem não se restringe ao tempo do profeta Isaías ou à época em que os judeus encontravam-se no cativeiro babilônico (século VI a.C). Tão pouco deveria ser aguardada indefinidamente para o futuro, quando surgisse algum líder esperado, conforme a idealização popular do Messias, e fosse inaugurar uma nova etapa histórica.

Poucos sabem explicar como que o ambiente mudou drasticamente de cordial para hostil naquela sinagoga. Tudo parecia estar bem até então e o versículo 22 dos diz que todos "se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios". A narrativa de Lucas não explica suficientemente como que aquele sentimento se transformou numa raiva tão enfurecida em que os moradores de um pequeno vilarejo chegaram a ter o desejo de lançarem o filho de José do alto de um precipício (v. 29).

A hipótese que suponho seria a incompreensão das palavras ditas por Jesus. Os ouvintes, ao invés de prestarem a atenção na sua proposta revolucionária, teriam feito comentários entre si apenas admirando a aptidão intelectual ou espiritual manifestada pelo novo pregador. A indagação "não é este o filho de José?", em Lucas, parece-me que foi mais um elogio do que alguma atitude de pouco caso ou de desprezo por sua pessoa. Só que, ao mesmo tempo em que havia o acolhimento formal inicial, os moradores de Nazaré continuavam ignorando o recado evangelístico ali ministrado.

Conhecendo bem aquele público e não se contentando com os rumos da reunião, Jesus teve a ousadia de contrariar aquelas pessoas, as quais até aí não cessavam de bajulá-lo. Ele não queria que a sua passagem pela aldeia onde fora criado se tornasse mais uma visita do filho que se projetou, como fazem muitos cantores, artistas, jogadores de futebol, autores de livro e políticos quando retornam às suas cidades de origem. E, para que a mensagem anunciada se tornasse uma pregação de efeito, quem sabe não era preciso criar uma situação de conflito?

"Disse-lhes Jesus: Sem dúvida, citar-me -eis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarnaum, faze-o também aqui na tua terra. E prosseguiu: De fato, vos afirmo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome sobre a terra; e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom. Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro." (Lc 4:23-27; ARA)

Talvez seja difícil um cristão admitir que quem provocou todo aquele sentimento de ira em Nazaré foi o próprio Senhor Jesus. Alguns tentam pela leitura comparativa com Mateus 13:53-58 e Marcos 6:1-6 encontrar explicações mais condizentes com a ideia pacata que construíram do Mestre. Porém, não acho que a resposta deva ser buscada nos outros evangelhos sinóticos e sim no próprio texto de Lucas. Isto porque cada autor parece querer diferenciar-se propositalmente um do outro (ou de uma fonte comum) e apresentar a sua versão afim de dar um sentido próprio à mensagem espiritual comunicada. E, nesta passagem, Lucas afasta-se muito do relato de Marcos, fornecendo detalhes não mencionados pelos outros dois evangelistas.

Ora, sendo então Jesus o causador do conflito, sou levado a escolher entre não concordar com a sua conduta ou procurar entender o porquê de ter gerado tanta contrariedade. Pois, tendo passado boa parte de minha vida em comunidades de pequeno e médio portes, observo que há um comportamento rançoso das pessoas em conviverem o mais superficialmente possível numa nauseante rotina para que as relações permaneçam imexivelmente bem. Por fora o prato de comida posto sobre a mesa parece saboreável, nem nenhum mofo visível, mas só quem prova, ou aproxima o nariz, pode perceber os efeitos da oxidação.

Pois é. Havia algo de podre em Nazaré e Jesus corajosamente botou o dedo na ferida daquela gente. Quem sabe seria o seu desejo que, com a pregação baseada em Isaías, as pessoas dali não começassem a soltar os nós de todo relacionamento opressivo e socialmente exploratório que entre eles houvesse? Não é isto o que muitas das vezes se vê nas pequenas cidades e ninguém tem ousadia para denunciar? Quantos padres e pastores do interior preferem deixar de expor publicamente as coisas escondidas que, durante os encontros dominicais na igreja, todos fingem não existirem? Recordo que, quando morava em Nova Friburgo, um dos maiores pólos de moda íntima do país, conheci apenas um pastor que falou contra os desrespeitos trabalhistas praticados pelos donos de confecções contra as costureiras.

Será que o Evangelho da Libertação jamais chegará nas nossas cidades, aldeias, bairros e igrejas?!

Esta é uma pergunta para cada um procurar responder. Ou melhor, para cada um tentar por em prática no lugar onde vive e lutar pelo estabelecimento da Verdade por mais que ela possa doer e incomodar. Por mais que interesses sejam contrariados e as pessoas sejam confrontadas com o próprio ranço delas.

Aquele foi, sem dúvida, um Shabat sem Shalom na antiga cidade de Nazaré, tendo em vista o tradicional cumprimento judaico que, numa empobrecida tradução, significaria "tenha um sábado de paz". Mas Jesus nos ensinou que não é fingindo estar tudo bem que alcançamos a verdadeira paz. Esta é uma conquista produzida pelo Evangelho e a sua concretização implica na contrariedade de muitos interesses incompatíveis com o Reino de Deus.


OBS: A ilustração acima refere-se a um quadro do pintor escocês David Roberts (1796-1864) que retratou bucolicamente a cidade de Nazaré. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Nazareth_the_holy_land_1842.jpg